O Brasil começou o ano em ritmo de crescimento chinês. Por que não vamos conseguir sustentar essa taxa.
Há dois anos, o Brasil tinha a expectativa de uma economia perto de 7% de crescimento. Aí veio a crise global, e nós crescemos zero. Nas circunstâncias mundiais, até que esse zero foi um lucro. Era um zero, mas com viés de crescimento. Esse viés se cumpriu. Só nos primeiros quatro meses do ano, já criamos quase a metade dos ambicionados 2 milhões de empregos formais. Com base na atividade econômica do país, o mercado financeiro projetou um crescimento anual de 6,5%, o dobro da média da década. Essa estimativa, já muito boa, está sendo considerada defasada por algumas entidades relevantes. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) fala em 7% e o Itaú Unibanco em 7,5% de crescimento anual. Se mantivesse o ritmo do primeiro trimestre – algo difícil de acontecer –, o país cresceria cerca de 10%, o triplo da média da década, similar ao ritmo da economia chinesa. Na história recente, o Brasil só teve esse ritmo nos anos 70, durante o regime militar, e ele não se refletia, como hoje, em diminuição da desigualdade – o país crescia, e os pobres continuavam pobres.
É claro que é empolgante falar em “crescimento chinês”, “novo milagre econômico” ou “volta ao ritmo dos anos 70”. Mas é uma empolgação desavisada. O crescimento do Brasil que usava calças boca de sino, de 9% ao longo de mais de uma década (de 1968 a 1980), não vai se repetir. Por dois motivos.
O primeiro é que a taxa de crescimento não pode ser dissociada do estágio da economia. Países menos maduros crescem mais por uma questão matemática. Para alguém com R$ 2 no bolso, uma nota de R$ 2 significa crescimento de 100%. Para alguém com R$ 10, é apenas 20%. O mesmo acontece com os países. Segundo projeções do FMI, Gana, no noroeste da África, deverá crescer 20% no ano que vem. A Alemanha apenas 1,7%.
Revista Época
Nenhum comentário:
Postar um comentário